Com frequência ouvimos frases
como:"Que falta de imaginação!","Por favor use a sua
imaginação!","Cuidado! Ela tem muita
imaginação!","Que nada! Você andou imaginando
tudo isso!","Não comece a imaginar coisas!","Imagine se
tivesse sido assim!".
Essas frases são curiosas porque indicam maneiras bastante
diferentes de concebermos o que seja a imaginação. Na
frase: "Que falta de imaginação!" e 'Por favor use a
sua imaginação!", a imaginação é
tomada como algo positivo, cuja falta ou ausência é
criticada. Imaginar, aqui, aparece como capacidade mais alargada
para pensar, para encontrar soluções inteligentes
para algum problema, para advinhar o sentido de alguma coisa que
não está muito evidente. Ela aparece
também,como algo que nós temos e que
podemos ou não usar.
Já nas frases:"Cuidado! Ela tem muita
imaginação!","Que nada! Você andou imaginando
tudo isso!" ou "Não começe a imaginar coisas!", a
imaginação é tomada como risco de irrealidade,
invencionice, mentira, exagero, excesso. Agora, imaginar é
inventar ou exagerar, perder o pé da realidade, assumindo,
portanto, um sentido bastante diverso do anterior.
Na frase:"Imagine se tivesse sido assim!", ou em outra
como:"Imagine o que ele vai dizer!", a imaginação
é tomada como uma espécie de suposição
sobre as coisas futuras, uma espécie de previsão ou
de alerta sobre o que poderá ou poderia acontecer como
consequência de outros acontecimentos.
Apesar de diferentes, essas frases possuem alguns elementos
comuns.Em todas elas:
╚ Positiva ou negativamente, a imaginação está referida ao inexistente. Dizer "Use sua imaginação!" significa: Faça de outro modo ou invente alguma coisa. Exclamar "Que falta de imaginação!" significa: Poderia ter feito muito melhor, poderia ter dito uma coisa muito mais interessante. Alertar com a frase "Cuidado! Ela tem muita imaginação!" significa: Ela inventa e exagera. Supor "Imagine o que nos teria acontecido!" significa: Criar a imagem de uma situação que não aconteceu.
╚ A imaginação aparece como algo que possui graus, isto é, pode haver falta ou excesso;
╚ A imaginação se apresente como capacidade para elaborar mentalmente alguma coisa possível, algo que não existiu, mas poderia ter existido, ou que não existe, mas poderá vir a existir.
A imaginação surge, assim, como algo impreciso, situada entre dois tipos de invenção - criação inteligente e inovadora, de um lado; exagero, invencionice, mentira, de outro. No primeiro caso ela faz aparecer o que não existia ou mostra ser possível algo que não existe. No segundo caso ela é incapaz de reproduzir o existente ou o acontecido. Com isso, nossas frases cotidianas apontam os dois principais sentidos da imaginação: criadora e reprodutora.
Esse foi um trecho do livro "Convite à filosofia", de Marilena Chauí.



luciana
Sáb 13 Jun 2009 04:36